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Publicada em 17/12 22h37

 Técnicos fazem do leite um bom negócio


Revista Balde Branco – Junho 2010

 

Walter Miguel Ribeiro é engenheiro agrônomo formado pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). Na sua vida acadêmica, tem também duas pós-graduações envolvendo teses de forragicultura e pastagem. Sua base profissional foi alicerçada na Embrapa Pecuária Sudeste, onde atuou durante dois anos no sistema de produção de leite.

 

Com tal experiência, passou a atuar como especialista técnico do Programa Balde Cheio, em Minas Gerais, uma ação que conta com o apoio do SENAR MINAS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e da FAEMG (Federação da Agricultura e Pecuária doEstado de Minas Gerais). Hoje, atende a 96 municípios, somando mais de 1.200 produtores no estado, além de 13 municípios no extremo sul da Bahia, com mais de 200 produtores, e sete na região norte do Espírito Santo, com 70 produtores.

 

Sobre o projeto de Minas, o trabalho é desenvolvido em parcerias com diferentes entidades em cada município onde o Programa Balde Cheio é adotado. Além de treinar técnicos, Ribeiro faz visitas quadrimestrais nas propriedades-modelo, onde repassa conceitos para os técnicos, para que eles possam levá-los aos outros produtores assistidos. O projeto em Minas Gerais tem atualmente 110 técnicos.

 

Nesta entrevista exclusiva à Balde Branco, Walter Ribeiro fala um pouco sobre sua experiência como profissional especializado em pecuária de leite. Aproveita também para analisar o atual estágio do setor e dizer o que pensa sobre o nível de eficiência do trabalho de assistência técnica aplicado no campo, o desempenho dos produtores e as perspectivas do negócio leite no país. Ribeiro é também professor do Curso de Especialização em Bovinocultura Leiteira da Unipac em Bom Despacho (MG).

 

Balde Branco – Como consultor técnico dentro da pecuária de leite, quais são os principais entraves na aplicação do seu trabalho?

Walter Miguel Ribeiro – Acredito que seja a necessidade de ganhar confiança. Quando chego a uma propriedade, tenho de mostrar algum resultado rápido e com pouco gasto. A partir daí começa uma relação de confiança entre o produtor e o técnico extensionista.

 

BB – O sr. tem assistido propriedades em regiões consideradas pouco favoráveis para produção de leite, como o Vale de Jequitinhonha, e tem obtido bons avanços. Como isso se dá?

WMR – O primeiro passo em um trabalho de extensão rural é sempre recuperar a autoestima do produtor, que normalmente está muito baixa, principalmente por sua condição financeira. E nessas regiões, como todos sabem, a condição financeira dos produtores é ruim. Por isso, quando chego, tenho de levar tecnologias que eles têm condições de utilizar. Um exemplo disso foi quando cheguei a uma propriedade e, antes mesmo de falar “bom dia”, o produtor disse que não teria condições de adubar a pastagem. Eu, de imediato, respondi que não queria saber se ele iria adubar a pastagem e, sim, se teria vontade de trabalhar. Ele passou praticamente seis meses limpando curral de vizinhos a troco do esterco para podermos adubar a pastagem com cinco quilos de esterco de curral/m2, para substituir toda a adubação inicial de correção da área. Como a quantidade de esterco/m2 é grande, começamos o trabalho nessa propriedade em 0,5 ha. Essa área inicial serviu apenas para ele aprender a manejar sua pastagem e, ao mesmo tempo, parar de se esconder atrás da desculpa de “não ter dinheiro” para fazer.

 

BB – A mesma explicação pode ser aplicada às regiões montanhosas de Minas, ao norte capixaba e ao sul da Bahia?

WMR – Sim. Em todas as regiões existem pontos positivos e pontos negativos. O que tenho de fazer é aproveitar os pontos positivos de cada região. Há três anos, levei até o Triângulo Mineiro uma excursão de aproximadamente 40 produtores rurais do Vale do Aço, pois eles reclamavam tanto da região, por ser montanhosa, que não conseguiam enxergar os pontos positivos. Quando chegamos ao Triângulo, os produtores viram uma região muito plana, porém com pouca água. Fiz questão de levá-los até um produtor que tinha de percorrer todos os dias quase um quilômetro para levar seus animais para beberem água em um vizinho, que cedeu a passagem quando viu a dificuldade que ele estava passando. A partir do momento em que o produtor contou sua história, todos os produtores se esqueceram de que suas propriedades eram montanhosas e só falavam que todas tinham muita água, não só para os animais, mas também, no futuro, para irrigar suas áreas.

 

BB – Existem diferenças conceituais para cada região onde o sr. assessora o trabalho de técnicos envolvidos com propriedades leiteiras?

WMR – Não. Tenho de deixar bem claro que os conceitos são os mesmos, mas preciso encarar cada propriedade como sendo um mundo próprio, em que levamos tecnologias aplicáveis àquela situação, sempre olhando sua condição financeira, mesmo sabendo que o dinheiro não irá agir no resultado final, mas vai ajudar muito na velocidade que vamos aplicar para chegar aos resultados propostos.

 

BB – Como o sr. avalia a recepção e a resistência dos produtores de leite nas regiões em que atua, diante dos técnicos e dos novos conceitos de exploração?

WMR – Isso é muito natural. Os produtores já foram muito enganados durante toda a vida e não acho justo crucificá-los por isso. A resistência normalmente acaba quando levamos esse produtor até uma região pior do que a dele, porém com resultado melhor. Este é um dos maiores motivos de levar os conceitos até produtores com pouca condição financeira e pouca terra. Tudo o que for feito para esse tipo de produtor serve de exemplo a qualquer um. Agora, se começássemos o trabalho com pessoas que têm muito dinheiro e muitas terras, não serviria de exemplo aos pequenos produtores.

 

BB – Em números, o que representa o Programa Balde Cheio, em Minas Gerais, hoje?

WMR – O Programa Balde Cheio em Minas Gerais teve início em maio de 2007 através de uma iniciativa da FAEMG e do SENAR MINAS. Hoje estamos atuando em 96 municípios espalhados em todo o estado econtamos com 110 técnicos, entre engenheiros agrônomos, veterinários, zootecnistas e técnicos agrícolas, todos em treinamento. Esses técnicos são fornecidos por uma entidade parceira do município, que disponibiliza o profissional para que ele faça parte do treinamento e, ao mesmo tempo, seja capacitado para atender a todos os produtores em seu município que tenham interesse em aderir o projeto.

 

BB – Em sua opinião, por que ainda é restrito o trabalho de assistência técnica no país, já que se mostra tão eficaz quando bem aproveitado?

WMR – Acredito que seja porque dispomos de poucos técnicos capacitados em sistemas de produção intensiva de leite. Não adianta termos um técnico muito bom em pastagens ou em silagem de milho, pois essas são somente algumas das tecnologias utilizadas na produção de leite. Estive recentemente no extremo sul da Bahia, onde tínhamos um produtor que, do ponto de vista de lotação da pastagem estava muito bom, pois tinha conseguido colocar nove vacas, de 550 kg de peso vivo, em 0,6 ha de braquiarão, o que dava em torno de 18 UA/ha. Apesar de o produtor ter essa lotação alta, todo o seu trabalho ia por água abaixo quando olhamos a porcentagem de vacas em lactação, que durante o ano de 2009 não passou de 60%, quando deveríamos ter pelo menos 80%, de um ideal de 83%. Com isso, apesar de termos muitas vacas/ha, nos faltavam vacas em lactação para concretizar a boa utilização da terra, em dinheiro no final do mês.

 

BB – Considerando sua experiência, quais são as principais deficiências do produtor de leite brasileiro?

WMR – Sem sombra de dúvida, é o compromisso. Todos os bons resultados do Programa Balde Cheio se dão em propriedades onde os produtores são compromissados com o técnico. Um exemplo disso é quando orientamos o produtor sobre o manejo de seu sistema de pasto rotacionado. Sei que ele não demora mais do que 15 minutos para fazer o manejo do piquete de que as vacas saíram (podar as sobras e adubar), porém ele deverá ir diariamente, no final da tarde, executar essa tarefa. Na maioria das vezes, isso não ocorre, pois deixa dois ou três piquetes para serem manejados em um só dia. O pasto foi dividido em um número de piquetes suficiente para que descanse, porém quando se aduba mais piquetes em um só dia, estamos perdendo crescimento do capim. Assim, o resultado não é o esperado.

 

BB – E de uma maneira geral, onde os técnicos extensionistas mais pecam no fator capacitação?

WMR – No campo o que sempre escuto dos técnicos é que eles ganham pouco. Disso eu não discordo, só acho que antes de reivindicar salários maiores, deveriam mostrar algo que ajude o produtor rural. Muitos técnicos deixam de se capacitar, pois dizem que a empresa que os contratou não reconhece seu trabalho. No Sul da Bahia temos um técnico no município de Medeiros Neto que trabalhava no projeto desde o ano de 2007, porém na última eleição para prefeito e com a mudança do governante daquele município, o técnico não teve seu cargo mantido, ficando sete meses desempregado, até ser novamente contratado. Apesar de ficar desempregado por todo esse tempo, não deixou de participar dos treinamentos, nem de atender aos produtores de seu município, às vezes, até mesmo tendo que pedir para os produtores irem pegá-lo na cidade, pois não tinha dinheiro nem para se locomover. Ele só fez isso para que seu treinamento não fosse interrompido. Infelizmente nem todos os técnicos são assim.

 

BB – O sr. tem dificuldades em recrutar técnicos, em formá-los dentro do projeto? Onde estaria o maior problema nesse sentido?

WMR – Temos dificuldades, sim. Na verdade não vamos atrás de ninguém. Em Minas Gerais existem instituições, como sindicatos rurais, cooperativas, laticínios, prefeituras e associações de produtores que contratam técnicos e, a partir daí, entram em contato conosco para que seja treinado. O maior problema é que quase todas as instituições visam ao número de produtores atendidos, ao passo que eu viso ao aprendizado do técnico de extensão rural. Um exemplo disso ocorreu no município de Inhapim (MG), onde passei praticamente um ano treinando o técnico e ele assistia apenas uma propriedade. Quando a propriedade começou a mostrar resultados, outros produtores se interessaram pelo projeto. Após três anos de projeto neste município, chegamos a atender 57 produtores com dois técnicos contratados pela Prefeitura.

 

BB – Pessoalmente, o sr. considera o leite um bom negócio no campo?

WMR – Acredito que o leite pode ser um bom negócio desde que o produtor seja atendido por um bom técnico. Um dos maiores motivos do insucesso na atividade se deve à falta de assistência técnica capacitada, ou porque em algumas regiões este serviço é escasso, ou ainda pelo fato de o produtor considerar que pagar pela assistência técnica implica aumento do custo de produção. Tenho que deixar bem claro que custo de produção é o quanto se gasta para produzir dividido pelo leite produzido. Portanto, nem sempre gastar dinheiro significa aumentar o custo de produção. Temos que encarar a assistência técnica como sendo um investimento para solucionar problemas na atividade, visando a um resultado financeiro melhor.

 

BB – Se o sr. fosse produtor de pequeno ou médio porte, em Minas, qual receita de exploração adotaria para assegurar a rentabilidade no negócio?

WMR – Não existe receita. O leite é uma atividade muito complexa e pode ser rentável, independentemente da forma de exploração escolhida. Como já disse, o primeiro passo seria contratar um bom técnico. Em todo início de algo novo, se deve agir devagar, capacitando todos os envolvidos. Por isso, sempre se deve começar pequeno, para montar uma base bem sólida. Todo aprendizado acontece depois de muitos erros e quando os erros são pequenos, gastamos pouco. E veja bem: começar pequeno não significa pensar pequeno.

 

BB – Em média, nossos índices de produtividade por vaca ou por área são muito modestos, se comparados com os de países especializados. O que precisaria ser feito para elevá-los? Qual o tipo de ação a ser adotado?

WMR – Estamos em um país em que, infelizmente, a vaca passa fome. Como avaliar esses animais quando ainda não conseguimos fornecer alimento suficiente para eles, de acordo com sua exigência? O que eu mais escuto em palestras e dias de campo é que os animais não têm genética leiteira. Não conseguimos fazer com que a vaca tenha um intervalo entre partos de 12 meses, ou seja, que dê um bezerro por ano. Sei que a genética poderia ajudar muito nossos índices, porém não podemos esquecer de que precisamos alimentá-las de acordo com suas exigências, antes de cobrarmos resultados.

 

BB – Em termos nacionais, o sr. vê com otimismo o futuro da pecuária leiteira em nosso país, aproveitando os fatores favoráveis de produção e da crescente demanda internacional? Já estamos preparados para essa oportunidade?

WMR – Sim. Acredito que todos os técnicos que trabalham com pecuária leiteira são otimistas com o futuro. Moramos em um país com condições climáticas muito favoráveis para a exploração intensiva. Para a demanda internacional precisamos alcançar três objetivos. O primeiro seria um preço competitivo; o segundo, uma boa qualidade; o terceiro, homogeneidade de entrega. O primeiro e o segundo objetivos estão longe do ideal, porém no caminho certo. Em relação ao terceiro objetivo, ainda falta muito, pois o que mais vejo são produtores produzindo na seca metade de sua produção do verão.

 

BB – Como o sr. avalia a chegada de produtores neozelandeses em estados como Bahia e Goiás, com megaprojetos voltados para produção de leite? É uma ameaça ou uma prova de que temos um potencial leiteiro ainda pouco explorado?

WMR – Isso confirma o que todos os especialistas dizem a respeito do potencial de produção de leite de nosso país. Os neozelandeses vieram ao Brasil, em minha opinião, para ter acesso a algo que nunca iriam conseguir em seu país, o abençoado clima tropical. Trabalhar com gramíneas, com um potencial pelo menos cinco vezes maior do que eles conseguem na Nova Zelândia. Não acredito que esse tipo de investimento possa ser visto como ameaça, mas, sim, uma resposta aos produtores brasileiros, que estão parados à espera de um milagre.

 






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